segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

5 anos depois...

 Depois de 5 anos, por um destes acasos tecnológicos do destino, esbarrei com esse blog. Ele que foi a face pública de angústias e observações, me proporcionou um pulo num passado distante. A volta à 5 anos atrás me mostrou como o mundo, o Brasil e a sociedade mudou.

Em 2016, eu havia retornado do RS para trabalhar com a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), e via com muito desgosto o Brasil que estava sendo desenhado pelo ex-presidente vampiresco Michel Temer.

Via um precipício que se aproximava.

Mas não tinha ideia de como cairíamos tanto e tão rápido.

Não havia Bolsonaro no Planalto, não havia Covid, e Trump ainda não tinha se mostrado na sua plenitude dantesca e fascista.

Não tenho ilusões de que tenha restado alguma alma disposta a ler esse blog, (eu mesmo tinha desistido), mas tenho esperança de que nesta quente noite de janeiro eu esteja escrevendo do fundo do poço onde a humanidade se enfiou.

Guardo o desejo de que a partir de agora seja um longo e custoso caminho rumo à saída. A eleição americana me deu esse desejo. Sei que Biden é um político conservador e estreitamente vinculado aos interesses do grande capital. Mas ver Trump perder a eleição e depois perder o espaço nas redes sociais não tem preço.

Parafraseando uma expressão popular, foi um bode que saiu da sala. 

Abração. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Janio de Freitas - Ignorância em ação



A extinção do Ministério da Cultura não foi ocasional. Não foi técnica. Nem é coerente apenas com o nível cultural do grupo que ocupa os postos chamados de "o governo". Há também uma coerência interna que identifica, uns com os outros, os integrantes desse grupo heterogêneo, caótico e retrógrado. Essa segunda coerência faz, inclusive, uma conexão entre a atualidade e o passado de algumas décadas.


O governo fala muito. Ainda que metade seja para desdizer o que foi dito na outra metade. Atos administrativos, para quem sabia tanto do que devia ser feito pelo governo anterior, nem um só. Há providências, porém.

Todas na mesma linha, das quais seguem-se alguns exemplos.


1) Nas duas dúzias de ministros, há um único indicado por Michel Temer. É o da Justiça, Alexandre Moraes, cuja primeira e solitária medida, divulgada logo ao assumir, é "rever todos os atos deste ano" praticados pelo antecessor, José Eduardo Cardozo.


2) No Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra comunica a providência de revisar atos e programas do governo Dilma. E uma investigação no Bolsa Família que pode resultar "no desligamento de 10% dos beneficiários", ou "mais, de 20% a 30%, se cruzados todos os dados". De que base respeitáveis vêm tais estimativas? O entra-e-sai faz do Bolsa Família uma população flutuante mês a mês. Parece claro que a intenção é cortar o gasto do Bolsa Família com uma alegação oportunista.


3) No Ministério da Educação e Cultura, Mendonça Filho manda rever todas as medidas tomadas nos últimos dias do governo Dilma por Aloizio Mercadante (Educação), Juca Ferreira (Cultura) e respectivos chefes de departamento.


4) Na Casa Civil, Eliseu Padilha comanda a revisão de todos os atos baixados por Dilma desde 1º de abril.


5) Também na Casa Civil, Padilha procede à revisão das demarcações de terras indígenas. Subprocuradora-geral da República, Deborah Duprat advertiu que a revisão pretendida viola a Constituição. Decisões passadas do Supremo Tribunal Federal foram no mesmo sentido. Mas, desejada por fazendeiros ocupantes de terras indígenas, a revisão continua.


6) Na Advocacia-Geral da União, Fábio Medina Osório chega com a determinação de "apurar" a conduta do antecessor José Eduardo Cardozo na defesa de Dilma. Parece-lhe inadmissível que Cardozo tenha se referido a "golpe", ao falar do golpe.


7) O próprio Michel Temer desconsidera a garantia legal do mandato de quatro anos do jornalista Ricardo Melo na presidência da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), empossado no início do mês. E o exonera.


As revisões citadas nestes exemplos e os demais casos, que incluem os outros ministérios, compõem um conjunto caracterizadamente persecutório e policialesco. Sua amplitude e prioridade evidenciam tratar-se, não da verificação de eventuais impropriedades, mas de arbitrariedade e prepotência como política de governo. Uma política que expressa a índole do governo e do próprio Temer, no mínimo por se sujeitar, como marionete, a corrompidos, ímprobos e fraudadores à sua volta.


É verdade que um ou outro governo tenta valorizar-se à custa de algumas reais ou alegadas acusações ao antecessor. Fernando Henrique, aliás, devia agradecer a Lula por nada ter investigado, com tantas possibilidades. Mas a busca e a perseguição como política e prática geral, vista agora, só teve um precedente no Brasil: o poder instalado pelo golpe de 1964. Não comparadas as dimensões, a sanha é a mesma. Até a covardia que leva a demitir o garçom do gabinete presidencial, José Catalão, porque considerado petista, iguala essa gente de hoje à lá de trás.


SENTENÇA


Gore Vidal, em "Washington, D.C." (há edição brasileira da Rocco), sobre o vice: "Pode-se dizer que tem todas as características de um cachorro, menos a lealdade".

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Ana Prestes lançará livro infantil sobre o Dia Internacional da Mulher

Conheci Ana quando estive em sua casa, na época em Contagem, para entrevistar sua avó, a guerreira Maria Prestes, viúva do famoso Luis Carlos Prestes. Mas fomos nos conhecer melhor ano passado, quando estive em Brasília, onde ela vive hoje com as duas filhas.

Por Cinthya Oliveira, 


Ilustração: Vanja Freitas
 
Recentemente, Ana Prestes me procurou para contar de seu projeto que está passando por um processo de financiamento coletivo no Catarse. Trata-se de um livro infantil sobre o Dia Internacional da Mulher. Não é uma ideia bacanérrima, poder empoderar meninas e instruir meninos desde a infância?

Respondi ao recado de Ana com uma simples resposta: vamos fazer uma entrevista para Um Capuccino? Assim, segue a entrevista de Ana, a cientista política que vive a luta social desde o berço e continua a transmitir esse ideal da família Prestes para as filhas, Helena e Gabriela.

Como veio a ideia de fazer um livro infantil sobre o Dia Internacional da Mulher?


A ideia surgiu de uma observação. Minha filha, Helena, estava com 7 anos e cursava o terceiro ano do ensino fundamental quando precisou realizar um trabalho escolar sobre o Dia Internacional da Mulher. Ao ajudá-la, percebi que não havia material sobre o tema que fosse de fácil entendimento para ela e as/os colegas. Todos os materiais que encontrou, impressos ou virtuais, falavam em termos que as crianças ainda têm dificuldades para compreender, por serem muito específicos das divergências políticas ou até por serem muito cruéis, assustadores.

É sórdido dizer para uma criança que cerca de 100 mulheres foram trancadas em uma fábrica e queimadas vivas. Essa historia famosa, sobre as tecelãs queimadas em Nova Iorque, além de ser assustadora para uma criança, carece de evidências para sua comprovação. Pensei em um livro que mudasse não só os termos para tratar o tema com as crianças, mas que introduzisse outras histórias, como a das mulheres russas de Petrogrado que realizaram uma greve em 8 de março de 1917, às vésperas da revolução russa de outubro, e foram fundamentais para a construção desta data histórica.



De que forma suas filhas contribuíram para o processo?


Helena, minha filha mais velha, foi meu laboratório de observação. Se aos 7 anos ela teve dificuldade para fazer o trabalho sobre o 8 de março, no ano seguinte, já no quarto ano do fundamental, ela teve mais facilidade por causa de nossas conversas, pesquisas e debates sobre a ideia do livro. Atualmente, no quinto ano, ela foi mais uma vez escolhida para falar do tema na escola e fez as professoras se emocionarem ao recitar o poema que é a base do livro Mirela e o Dia Internacional da Mulher.

Já a Gabriela, que hoje está com 6 anos, se envolveu muito com a personagem do livro. Ela ficou muito orgulhosa quando li o texto para elas pela primeira vez e vibrou quando a personagem ganhou um nome, Mirela, e mais ainda quando nossa personagem ganhou feições das mãos da ilustradora Vanja Freitas. Gabriela queria que Mirela fosse parecida com ela! Lá em casa, a Mirela virou uma filha e irmã caçula da qual todas estamos cuidando, torcendo para que ela comece a dar seus primeiros passos e possa chegar em outras casas através do livro.

Qual é a sua visão sobre o uso que fazemos sobre o Dia Internacional da Mulher?

Infelizmente, assim como outras datas, o 8 de março caiu nas teias do esvaziamento de seu conteúdo político e passou a ser tratado de uma forma mercadológica. Isso ocorre porque o comércio quer lucrar com esta data, o que é natural no sistema que vivemos, e também porque há uma forte pressão dos setores mais conservadores da sociedade para desvincular o significado da data de tudo aquilo que signifique mais liberdade, autonomia, independência, desenvolvimento e emancipação para as mulheres. Por outro lado, no Brasil dos últimos anos, com a ascensão de uma mulher à Presidência da República e o fortalecimento de movimentos sociais que tratam de temas sensíveis à condição feminina e dos direitos à igualdade, houve um fortalecimento de uma agenda feminista mais significativa e vinculada às verdadeiras aspirações da data. Pra resumir, há um verso do nosso livro que diz:

"O 8 de março nasceu
também para ser bonito
Mas não vamos deixar as flores
esconderem o conflito"

Conte-me um pouco sobre sua história como feminista e a importância de se valorizar a luta. 

Nasci em uma família com mulheres muito fortes, minha bisavó, Leocádia Prestes, liderou uma campanha internacional pela libertação de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes em tempos de ditadura e sem internet! Olga, a primeira esposa do meu avô, foi uma jovem revolucionária comunista que morreu em um campo de concentração nazista e defendeu a justeza de sua causa até o último minuto de vida. Maria Prestes, a segunda esposa de Prestes e minha avó amada, sempre foi minha grande referência de vida. Uma mulher que enfrentou a ditadura do estado novo e a ditadura militar, ao mesmo tempo em que formava uma grande família e até hoje defende os ideais libertários aos quais aderiu ainda na adolescência. Desde muito nova, me transformei em uma questionadora da condição feminina.

Na adolescência não foram poucos os conflitos familiares e sociais nos quais me envolvi por tais questionamentos. Há 20 anos tenho uma militância política e social que não se restringe à pauta feminista, mas que a abarca e da qual ela é uma das essências. É fundamental valorizar a luta das mulheres. Sem igualdade não pode haver sociedade justa.

Como o dinheiro do financiamento coletivo será investido?


Com os recursos arrecadados pela campanha no Catarse  vamos remunerar os profissionais responsáveis pela ilustração, design final do livro, edição final, impressão e a distribuição pelo país.
 

Fonte: Blog Um Capuccino

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

2015 começa com encontro de Blogueiros de Brasília

Estive ausente do blog no ano passado inteiro, pois um ano com Copa e eleições deu um baita trabalho. Somando-se o trabalho que tive em 3 cpi's (Espionagem e as duas da Petrobras), mal tive tempo de me dedicar às redes sociais.
Mas partindo da premissa que este será um ano um pouco mais civilizado, retorno ao blog.
E para começar divido com você leitor um evento interessante que será realizado na próxima sexta-feira em Brasília.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Adeus Madiba


Esta noite nos deixou um ser humano ímpar, um exemplo de vida, um lutador sem tréguas contra as injustiças, o preconceito e o racismo. 
Madiba fará falta neste mundo cercado de vilania, onde os brancos e os ricos se acham no direito de se revoltar, onde o fim de alguns privilégios alimenta a ira e o ódio, um mundo em que as forças que o encarceraram por 27 anos choram lágrimas de crocodilo pela sua morte.

Não o conheci e nunca fui à África, mas sinto que perdi um amigo, um professor, um líder.
E me lembro do texto que o acompanhou na prisão injusta que ele enfrentou:

"De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.


Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.


Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino.
Sou o capitão da minha alma."

Willian Ernest Henley

A espionagem, a segurança e o capitalismo


O debate acerca das denúncias de espionagem norte-americana pelo mundo afora trouxe à tona um universo distante da nossa realidade. Um debate que todos achavam restrito aos filmes e à ficção.
Entretanto a espionagem, a sabotagem e a manipulação de foros internacionais existem.
As denúncias de Edward Snowden mostram que o ímpeto americano de tentar subjugar todos os países aos seus interesses vai muito além das iniciativas e medidas diplomáticas, políticas e econômicas.
O planeta assiste desde o final da segunda guerra, o crescimento exponencial da máquina militar estadunidense, que permite a este país estar presente em praticamente todos os conflitos, direta ou indiretamente.
Mas longe da ostentação belicista fomentada pela guerra fria, cresceu também um poderio imenso nas ações de inteligência.
O conjunto de agências norte-americanas de inteligência, que incluem as famosas CIA e NSA, se transformou em um estado paralelo alimentado pelo medo e com carta branca para realizar tudo: apoio e organização de golpes de estado, assassinatos seletivos, grampos, interceptações, sequestros e toda sorte de ilegalidades contra o mundo e também contra os norte-americanos.

Mas como fica o Brasil nisso?

O golpe de 64 foi emulado, apoiado e financiado pela Hidra americana e moldou nossos serviços de segurança e inteligência à imagem e semelhança de seus interesses.
Desde a redemocratização, o Brasil vive impasses ao tentar superar o desenho de nossa inteligência, que atuava focada única e exclusivamente contra a esquerda e os movimentos sociais.

O Brasil construiu uma nova organização, com objetivos e quadros formados dentro de uma nova perspectiva. Uma perspectiva focada na defesa de nossos interesses.
Mas longe de estruturarmos de fato nossa política de inteligência, ainda lutamos contra o preconceito e contra a indisfarçável desconfiança que a sociedade tem das atividades de inteligência.
Um exemplo é o fato da Comissão do Congresso responsável pela fiscalização das ações da ABIN ter demorado mais de 14 anos para ter um regimento que regulasse suas ações.
Outro exemplo é falta de regulações sobre as ações de inteligência.
Nossa fragilidade neste campo, somada ao alinhamento automático do tucanato e assemelhados aos interesses americanos nos deixou em uma situação dificílima para enfrentar a sanha controladora dos arapongas de todos os matizes.
O desmonte de nossa estrutura de comunicação nas privatizações de FHC, que vendeu nossos satélites e interrompeu nossas pesquisas em telecomunicações, foi um verdadeiro crime cujos autores andam soltos pelo país.
Por fim, a contaminação de setores do governo pelos interesses de empresas de internet e teles, impedem até o momento que um marco civil para internet seja aprovado. Um marco que regulamente o nosso direito de usar como quisermos a estrutura da internet, resguardando nossa privacidade e o papel transformador que a comunicação pode ter.

O quadro rascunhado neste texto, é muito mais complexo e amplo. Mas mesmo organizações e academias ainda vislumbram muito mais os detalhes que o todo.
Em 2011, acompanhei uma série de debates sobre o capitalismo cognitivo e a sociedade de controle realizadas pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, e muito do que se debateu ali beirava o delírio na visão dos militantes dos partidos de esquerda. Passados mais de dois anos, o que parecia paranoico se mostrou quase ingênuo.

As manifestações quase fascistas que vemos nas redes sociais mostram-nos que mais do que perder tempo em debates infindáveis com proto-revoltados, é preciso entender o alcance e a extensão que o capitalismo alcançou.

Hoje, graças a uma conjunção entre a nossa falta de capacidade reativa institucional, falta de regulação na preservação de nossos direitos cibernéticos, contaminação de forças de esquerda pela força do capital e a hipertrofia do controle americano temos um capitalismo que administra, consome e entra nos corações e anula as mentes de milhões brasileiros.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Amazon, do outro lado do computador

Por Jean-Baptiste Mallet

Com empresários celebrizados, telas finas e cores vivas, a economia digital evoca a imaterialidade, a horizontalidade e a criatividade. Porém, uma investigação sobre a gigante do comércio eletrônico Amazon revela o outro lado da moeda: fábricas gigantes em que humanos pilotados por computadores trabalham até a exaustão.
INVESTIGAÇÃO NOS ENTREPOSTOS DO E-COMMERCE
Descolando seu olhar dos cartazes do sindicato alemão Ver.di – o sindicato unificado dos serviços – presos à parede da sala de reuniões, Irmgard Schulz se levanta de repente e toma a palavra. “No Japão”, conta, “a Amazon acaba de recrutar cabras para que elas pastem em torno de um armazém. A empresa colocou nelas um crachá igual ao que temos pendurado no pescoço! Está tudo lá: nome, foto, código de barras.” Estamos na reunião semanal de funcionários da Amazon em Bad Hersfeld (Hesse, Alemanha). Em uma imagem, a operária logística acaba de resumir a filosofia social da multinacional de vendas on-line, que propõe ao consumidor comprar com alguns cliques e receber no prazo de 48 horas um esfregão, as obras de Marcel Proust ou um arado motorizado.1
Em todo o mundo, 100 mil pessoas estão trabalhando em 89 armazéns logísticos cuja superfície somada totaliza cerca de 7 milhões de metros quadrados. Em menos de duas décadas, a Amazon projetou-se na vanguarda da economia digital, ao lado da Apple, do Google e do Facebook. Desde seu lançamento em Bolsa, em 1997, seu faturamento foi multiplicado por 420, chegando a US$ 62 bilhões em 2012. Seu fundador e CEO, Jeffrey Preston Bezos, metódico e libertário, inspira aos jornalistas retratos ainda mais lisonjeiros desde que investiu em agosto último US$ 250 milhões – 1% de sua fortuna pessoal – para comprar o diário norte-americanoThe Washington Post. O tema do sucesso econômico eclipsa com certeza o das condições de trabalho.
Na Europa, a Amazon escolheu a Alemanha como carro-chefe. Ela estabeleceu ali oito plantas logísticas e construiu uma nona. Ao volante de seu carro, Sonia Rudolf pega uma avenida chamada Amazon Strasse2 – a municipalidade financiou a chegada da multinacional num valor de mais de 7 milhões de euros. Em seguida, aponta um enorme bloco de construção cinza. Atrás de uma cerca de arame farpado, surge o armazém. “No terceiro andar da FRA-1,3 não há nenhuma janela, nenhuma abertura, nenhum ar condicionado”, testemunha a ex-funcionária. “No verão, a temperatura ultrapassa os 40 graus, e os mal-estares são muito frequentes. Um dia – vou me lembrar disso por toda a vida –, quando eu estava fazendo ‘picker’ [ato de prender as mercadorias nos alvéolos metálicos], encontrei uma moça deitada no chão e vomitando. Seu rosto estava azul. Eu realmente achei que ela fosse morrer. Como não tínhamos maca, o gerente pediu-nos que conseguíssemos um palete de madeira sobre o qual a estendemos para transportá-la até a ambulância.”
Fatos semelhantes foram relatados pela imprensa nos Estados Unidos.4 Na França, foi o frio, em 2011, que atingiu os funcionários do armazém de Montélimar (Drôme), forçados a trabalhar com parcas, luvas e bonés, até que uma dúzia deles começou uma greve e conseguiu que o aquecimento fosse ligado. Foi assim, em parte, que a Amazon catapultou seu fundador ao 19o lugar entre os bilionários do planeta.5
A especificidade do supermercado on-line consiste em permitir que os comerciantes, por meio de sua plataforma Marketplace, ofereçam produtos para venda em seu site, em concorrência direta com sua própria mercadoria. O conjunto infla as cifras do negócio e faz crescer o efeito “cauda longa” – a agregação de múltiplos pequenos volumes de encomendas de produtos pouco solicitados cujo custo de armazenamento é baixo –, na origem do sucesso da empresa. Esse sistema, eficaz para o consumidor, recruta livreiros para a promoção do gigante que vampiriza a clientela deles e destrói sua atividade.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A explosão do jornalismo, segundo Ignacio Ramonet

Em seu novo livro, "L’Explosion du journalisme. Des médias de masse à la masse des médias", o antigo diretor do Le Monde Diplomatique analisa a mudança profunda do que ele chama de “ecossistema midiático” e o fim inelutável de uma grande parte da imprensa escrita.

Os grandes grupos midiáticos constituídos nas décadas de 80 e 90 mostram-se ineficazes face à proliferação dos novos modos de difusão da informação. Os grandes jornais perdem leitores no papel, mas crescem na internet.
Bernard Gensane
Em "L'Explosion du journalisme. Des médias de masse à la masse des médias" Ramonet dedica várias páginas à natureza da informação na era da internet 2.0. Circulando à velocidade da luz, ela se inscreve em um processo dinâmico e torna-se um trabalho em curso jamais acabado. Em troca, dinossauros certamente em via de extinção, os grandes grupos midiáticos constituídos nas décadas de 80 e 90 mostram-se ineficazes face à proliferação dos novos modos de difusão da informação. Os grandes jornais perdem inexoravelmente leitores no papel, mas não param de ganhá-los na Web (43 milhões de internautas leem o New York Times).
120 jornais diários desapareceram nos Estados Unidos (25 mil empregos destruídos entre 2008 e 2010). A circulação da imprensa escrita cai cerca de 10% ao ano. Como o Christian Science Monitor, vários grandes órgãos de imprensa viram suas edições impressas afundarem. Terceiro maior grupo multimídia do mundo, a News Corporation (Rupert Murdoch) reconheceu perdas anuais superiores a 2,5 bilhões de dólares. O Financial Times, uma das vozes mais prestigiadas do capitalismo liberal no mundo, paga seus editores três dias por semana. Quando os sites dos grandes jornais passaram a ser pagos (como o Times), a visitação despencou (de 22 milhões para 200 mil). Libération ou Mediapart escolheram um modelo de pagamento parcial. Cabe registrar que se a imprensa da internet é, no momento pelo menos, quase gratuita, isso se deve ao fato de que ela é subvencionada pelos leitores da imprensa escrita.
Antes, os meios de comunicação vendiam informação. Agora, como a TF1 faz com a Coca Cola, vendem consumidores a seus anunciantes. Quando “Slate” (grupo do Washington Post) comenta um livro ou um DVD, links ligam o texto ao site de vendas da Amazon. Para cada venda efetuada, Slate recebe 6% do total. Pretender que os relatórios possam ser falsos seria uma prova de arcaísmo.
Houve um tempo em que os grandes jornalistas tinham por missão escrever análises muito bem argumentadas, ou ainda provar que Nixon utilizou “encanadores”. Hoje, eles preferem “fascinar o povo”, frequentando o reino das celebridades e autoridades e ficando o mais perto possível – até carnalmente – de homens e mulheres da política. O que não contribui para a democracia avançar. No final da cadeia, os usuários desses meios de comunicação, explica Ramonet, tornam-se produtores-consumidores e espectadores-atores.
A missão informacional é parasitada pela comunicação. Quando eu comunico, é para mim; quando eu informo, é para ti. A partir de que momento um jornalista de um grande grupo para de informar a fim de comunicar para o grupo que lhe retribui? Na França, como em outros países, uma boa parte da imprensa está concentrada nas mãos de oligarcas (Dassault, Arnault, Weill, Rotschild, Pougatchev). Ora, assinala o autor dando o exemplo dos Estados Unidos, “um quinto dos membros dos conselhos de administração das mil principais empresas estadunidenses estão igualmente na direção dos maiores grupos midiáticos. A comunicação tornou-se uma matéria-prima estratégica. As cifras dos negócios de sua indústria chegaram em 2010 a 3 bilhões de euros (15% do PIB mundial)”.
Os meios de comunicação não são mais um quarto poder encarregado de contrabalançar os outros três e de proteger o cidadão por meio do esclarecimento: “Os grandes meios de comunicação representam um real problema para a democracia. Eles não contribuem mais para ampliar o campo democrático, mas para restringi-lo e mesmo para pretender substituí-lo. Os grupos midiáticos se tornaram os cães de guarda da desordem econômica estabelecida. Esses grupos se tornaram os aparelhos ideológicos da globalização. Eles não se comportam mais como meios de comunicação mas sim como partidos políticos. Eles se ergueram à condição de oposição ideológica”. Eles têm o poder sem a responsabilidade. As falsificações não param de aumentar. A mais célebre, nos últimos anos, foi a das armas de destruição em massa no Iraque. Os jornalistas “embarcados” conscientemente cruzaram a linha.
Face essa deformação da missão jornalística, uma parte do mundo jornalístico reagiu encontrando uma nova via: jornalistas profissionais, experts, blogueiros participativos (Rue89, Huffington Post). Aí está, talvez, a verdade da informação coletiva na internet.

Ignacio Ramonet dedica, obviamente, um longo espaço a Wikileaks. Assange, explica, observou a morte da sociedade civil em escala mundial, a existência de um gigantesco aparato estatal de segurança oculto por parte dos Estados Unidos, o desastre dos meios de comunicação internacionais que, se não existissem, nos permitiriam nos mover melhor. A filosofia do Wikileaks é que, na democracia, todo segredo existe para ser revelado. Wikileaks conta com cerca de vinte membros permanentes e 800 colaboradores voluntários. Apesar da justiça britânica, da Paypal ou do Mastecard (que tentaram arruiná-lo), Assange não está só e sua marcha é irreversível. Com a divulgação de arquivos sobre a corrupção na Tunísia, Wikileaks ajudou a desencadear as mobilizações antes mesmo do suicídio de um jovem universitário recém-formado. Dito isso, cabe assinalar que a informação via internet não é suficiente para provocar o fim milagroso da exploração entre os humanos: duas em cada três pessoas não têm acesso à internet.
As redes sociais conheceram um desenvolvimento exponencial: 175 milhões de assinantes no Twitter, 650 milhões no Facebook. A cada mês, 970 milhões de visitantes únicos se conectam ao Google, 400 milhões à Wikipedia. A utilização de ferramentas como iPod, iTundes, os tablets (que, em breve, serão tão leves que poderão ser levados no bolso de nossas camisas) assinala o fim dos CDs, dos DVDs e o afundamento da indústria do disco. Com o meio se tornando mensagem, os jornais criam versões – para não dizer “produtos” – “Smartphone” ou “iPad”.

Alguns vão mais longe ainda na captação de consumidores. Com The Upshot, Yahoo! Criou um site de informações os temas tratados não são mais determinados por jornalistas, mas pelas estatísticas de busca dos internautas (na França, Wikio tem 3 milhões de visitantes mensais). Essa “massificação planetária do trabalho free-lancer” faz com que uma informação que não esteja na internet não exista ou não tenha importância alguma. Isso pode criar, diz Ramonet, um, “sentimento de insegurança informacionais”. O que explica, talvez, que só 27% dos franceses confiem nos meios de comunicação. Menos que os bancos que, no entanto, não lhe dão nenhum presente.
Ignacio Ramonet termina com uma nota de esperança: segundo ele, em um mundo cada vez mais complexo, em busca de referências, a imprensa escrita de qualidade, que permite a diminuição dos pontos de vista expressos honestamente, as análises aprofundadas, tem um belo futuro diante de si. Aceitemos como um bom presságio.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A noite dos cristais

As manifestações crescentes em todo o país, tem tido um cheiro estranho. Desde a redemocratização, não se via tantos protestos calcados em termos morais.
A marcha com Deus pela Liberdade reuniu milhares em São Paulo, também em luta contra a "corrupção".
Na minha modesta opinião, a estranha atuação da tropa de choque em SP, na quinta passada, foi a senha de que os setores conservadores iriam mudar seu entendimento e sua ação frente às manifestações do Movimento Passe Livre. A despolitização, junto com a revolta pueril alimentada pelos psolistas do movimento caíram como uma luva para catalisar o direitismo militante de nossa classe média.
Essa imensa massa de manobra, alimentada pela mídia, só foi ativada pela mudança na pauta da grande mídia, que do dia para a noite passou a emular e estimular a desestabilização do país.
O ponto alto para esta turma, será o cancelamento da Copa.
Neste momento, é fundamental que os movimentos sociais reais, saibam se diferenciar destes fascistas. É fundamental sair da pauta deles e também dos seus atos.
Nesta quinta, assistimos um verdadeira noite dos cristais tropical.
Para quem não sabe do que estou falando aqui vai o post da wikipedia sobre isso:


Noite dos Cristais (alemão Reichskristallnacht ou simplesmente Kristallnacht) é o nome popularmente dado aos atos de violência que ocorreram na noite de 9 de novembro de 1938 em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazi ou Terceiro Reich.

A pedido de Adolf Hitler, Goebbels instiga os dirigentes do NSDAP e os SA a atacarem os judeus. Heydrich organiza as violências que deviam visar as lojas de judeus e as sinagogas. Numa única noite, 91 judeus foram mortos e cerca de 25.000 a 30.000 foram presos e levados para campos de concentração. 7500 lojas judaicas e 267 sinagogas foram reduzidas a escombros.

As ordens determinavam que os SA deviam estar vestidos à paisana, a fim que o movimento parecesse ser um movimento espontâneo de uma população furiosa contra os judeus. Os incêndios também chocaram uma parte da população, mas não o fato de que os judeus tivessem sido atacados fisicamente. 

A alta autoridade nazista cobrou uma multa aos judeus de um bilhão de marcos pelas desordens e prejuízos dos quais eles foram as vítimas. O nome Kristallnacht deriva dos cacos de vidro (vitrinas das lojas, vitrais das sinagogas, entre outros) resultantes deste episódio de violência racista.1

Grifo meu.

domingo, 16 de junho de 2013

Cante sua música


Assisti a um documentário sobre a vida do cantor norte-americano Harry Belafonte que, além de ser um filme belíssimo, trouxe-me uma reflexão sobre o que temos visto nas ruas com as marchas, manifestações e protestos organizados pelos movimentos sociais.
O documentário faz um retrato da militância deste artista em defesa dos direitos civis e humanos. Confesso que só o conhecia por uma canção: Banana Boat Song, e muito superficialmente.
Mas ao ver seu passado de lutas em defesa dos direitos dos negros nos EUA, contra a fome na África, contra o apartheid e contra a criminalização da pobreza, me surpreendi com sua grandeza.
Foi emocionante ver seu encontro com Nelson Mandela.
E mais do que isso, este documentário veio para mim em boa hora. Veio com as manifestações dos jovens em SP, RJ e RS na semana passada. Veio com as marchas contra o Estatuto do Nascituro em todo o país.

Faço uma ressalva às manifestações de Brasília, onde na minha opinião houve um misto de ação dos setores mais atrasados alimentados pelo que restou do coronelismo de Roriz e do oportunismo da esquerda udenista do PSOL com a têmpera autoritária da PM do DF. Porque por mais que eu me esforce, não vi nos protestos de Brasília nenhuma luta por direitos, apenas um embate pré-eleitoral.

Mas vamos aos protestos reais. Os milhares de jovens que se reuniram na luta contra o aumento das passagens, tem na pauta a concretude da defesa de seus direitos.
Por mais que tenhamos avançado na construção de políticas públicas de inclusão. Por mais que os governos tenham tirado milhões de pessoas da miséria absoluta. Ainda temos um longo caminho a trilhar.
Quem mora nas periferias das grandes cidades, quem estuda nas nossas escolas públicas, depende de nossos hospitais, sofre descriminações de todas as formas, sabe que ainda estamos muito longe da "realidade" dos gráficos de programas governamentais.
Ainda vivemos em uma sociedade em que um negro num táxi à noite é sempre suspeito, como aconteceu com o então secretário-executivo do Ministério do Esporte, Orlando Silva no início do governo Lula.  Para quem não se lembra: ele pegou um táxi após uma sessão de cinema, e o motorista pediu "ajuda" aos guardas em frente ao Palácio do Planalto com medo de que ele fosse um assaltante.
Um episódio marcante, mas que ficou restrito às notas de pé de página de alguns jornais.
Vivemos em uma sociedade que elege figuras do calibre de Jair Bolsonaro e seus filhos para a Câmara dos Deputados, Assembleia Legislativa e Câmara Municipal do Rio.
Vivemos em um país onde a ira fascista da classe média, que mira em negros, pobres, gays, lésbicas, sem-terra, sem-teto, e quaisquer outras lutas sociais, com a justificativa moral de combater a "corrupção".
Nem vou perder meu tempo, e o seu, falando disso.
Pois bem, estes são os fatores que catalisam as manifestações que vemos.
Sem dúvida que as redes sociais permitem que um indivíduo se informe e integre as lutas e atividades, sem precisar participar de reuniões ou outras formas de organização. Mas na minha modesta opinião, não são as redes que catalisam, elas facilitam apenas.
A luta contra as injustiças existiam antes, dentro e fora dos partidos. Contra patrões e contra governos. E fundamentalmente na defesa de direitos.
A luta estudantil não surgiu com o Fora Collor, nem a luta sindical surgiu com metalúrgicos do ABC.
A luta de Mandela contra o apartheid foi feita dentro do Congresso Nacional Africano, mas também fora dele.
Digo isso, pois não tenho dúvidas que nos movimentos existem os que dedicam suas vidas às lutas, e também há os que utilizam as lutas para ascenderem política e socialmente.
Não critico as formas institucionais de luta, sei bem a sua importância e relevância. Mas não me perfilo aos que consideram todos os atos e movimentos unicamente dentro da lógica eleitoral.
Este ano, participei de um seminário onde um ilustre economista discorreu sobre a necessidade de lutarmos por novas propostas de saúde que contemplassem a longevidade que nossa sociedade permitia agora. Que a luta acertada seria em defesa da "felicidade" apenas.
Uma argumentação estranha, desconcertante, dado o respeito que tinha pelo palestrante.
Fui salvo deste estado de desconforto pela  intervenção de um operário que estava na mesa e lembrou que "ainda estamos no capitalismo, e nossa luta neste momento é para superá-lo".
A participação da esquerda nos governos municipais, estaduais e no governo central não nos desobrigam da luta contra o degredo social, a injusta estratificação e a exploração criados pelo capitalismo.
A classe média só entende a violência policial ao ser defrontada com uma brutal repressão como a que foi feita em São Paulo. Mas aquilo não é exceção, aquilo não foi excesso. A brutalidade está na vida real de milhões de brasileiros.
Ver uma pessoa como Harry Belafonte, que aos 80 anos se dedica ao combate da criminalização da juventude e da pobreza emociona.
Ele, ainda canta a sua canção.
E estamos assistindo milhares de vozes cantando as suas. Canções bem-humoradas, de protesto, fora do ritmo, desarmoniosas, mas a plenos pulmões.
Muito mais vivas que o silêncio covarde dos que tem esperança que nada aconteça.




sexta-feira, 14 de junho de 2013

O divórcio com a realidade


As manifestações contra o preço das tarifas de transporte público se alastraram pelo país mobilizando  diversos setores da população. Em Porto Alegre, pude ver o apoio crescente que os jovens foram angariando. Aos poucos toda a população foi se solidarizando com a luta inicialmente juvenil e estudantil. A própria reação do prefeito Fortunati, de não recorrer da liminar concedida pela Justiça reduzindo a tarifa, foi um gesto político calculado para diminuir o desgaste de sua gestão.
Mas mais do que comentar as manifestações que estão se ampliando, à revelia das organizações sociais, quero trazer ao debate o comportamento da mídia na batalha campal travada em São paulo na noite desta quinta-feira.
A dessincronia entre os editores e a realidade foi brutal.
Acostumados a construir suas matérias dentro de um roteiro pré-determinado, TV's e jornais foram surpreendidos pela truculência e brutalidade da PM de SP. Imagino o desespero da equipe de comunicação do governo paulista ao assistir o desastre de relações públicas que foi a atuação da polícia.
Um desastre de proporções mundiais, ao ser reverberado pelos principais sites de notícias do mundo e condenado imediatamente pela Anistia Internacional.
Pois bem, apesar do script claro na redação da GloboNews destacando a "violência" dos manifestantes, a repórter presente na manifestação insistia no relato de que "havia recebido flores e beijos dos manifestantes".
Na Record, o apresentador exaltava a postura "firme" da polícia, enquanto um cinegrafista da emissora era agredido também pela PM.
O apresentador do programa policialesco da Band, construiu uma enquete ao vivo com a pergunta "Se você concorda com a realização de manifestações com baderna". Enquete vencida com folga, para imenso constrangimento do dito apresentador, pelo SIM.
Fora as covardes agressões aos jornalistas da Folha, Estadão, Terra e outros veículos.
Os profissionais da comunicação vivem a cada dia mais sobre o tacão da pressão nas redações, da concentração de tarefas, do fantasma dos "passaralhos".
E como se viu nesta quinta, sob a visão distorcida que as pautas pré-fabricadas lhes impõem.
Uma boa parte dos editores aposta cada vez mais no divórcio dos veículos com a realidade. 
Não importa que a que preço isso ocorra.
Não importa que a população perceba a gritante diferença entre as pautas e o que é visto nas ruas.
Foi assim na Diretas Já, foi assim nas primeiras manifestações do Fora Collor.
Também foi assim na hipertrofia editorial do julgamento do mensalão pelo STF.
Não importa que os profissionais sejam sacrificados nesta luta insana, só o que vale é o desejo dos donatários da grande mídia.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A cultura de participação do público na produção do noticiário provoca mudanças nos critérios de noticiabilidade

Um artigo muito interessante que merece nossa atenção.

http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/novosolhares/article/viewFile/8511/7855

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mídia tradicional, também acuada, cerra fileiras com Manning e Assange


Por Nelson de Sá
Organizações jornalísticas que haviam rompido com o Wikileaks, resolvem destacar julgamentos diante da revelação de que a repressão governamental avançou contra Associated Press e Fox News.
Seis meses atrás, o "New York Times" não enviou repórter para cobrir o depoimento de Bradley Manning, nas audiências preparatórias para o julgamento.
Mas ontem, no início formal do julgamento, que deve se estender por julho e agosto, lá estava o repórter Charlie Savage --que alimentou a submanchete on-line ao longo da tarde e noite.
Foi submanchete on-line também no "Guardian", jornal britânico que, como o americano, havia rompido com o WikiLeaks.
E foi manchete nos sites dos canais de notícias MSNBC, americano, e BBC, britânico, além de destaque no alto das páginas iniciais do "Wall Street Journal" ao "Washington Post".
Em ação paralela, 18 organizações jornalísticas americanas, da Bloomberg à "New Yorker", assinaram ontem carta cobrando da juíza mais acesso às informações do próprio julgamento.
Passados seis meses, "NYT" e outros mudaram de atitude diante da revelação de que a repressão governamental aos vazamentos, antes focada no WikiLeaks, avançou contra Associated Press e Fox News.
Foi preciso que as ações do Departamento de Justiça dos EUA chegassem às instituições mais tradicionais para o WikiLeaks, afinal, ser aceito como jornalismo --e não ativismo político.
Em sinal claro de que estava cerrando fileiras, o "NYT" publicou um dia antes um longo artigo de Julian Assange. Era uma resenha de livro, mas ele aproveitou para defender Manning, no final. Assange foi descrito pelo jornal, formalmente, como "editor-chefe do WikiLeaks".
Em outras palavras, para o "NYT", também os jornalistas e as fontes ("whistle-blowers") do WikiLeaks têm direito à proteção que a Constituição e as leis americanas devotam à imprensa.
Sintomaticamente, Bill Keller, ex-editor-chefe do "NYT" que comandou a ruptura com o WikiLeaks há três anos, ironizava ontem, num texto sobre a perseguição judicial do governo Obama aos jornalistas: "Nos últimos tempos, até a âncora da Fox News Megyn Kelly anda soando como Daniel Ellsberg."
Ellsberg, hoje um dos grandes defensores de Bradley Manning, foi a fonte governamental que passou ao "NYT" os Papéis do Pentágono --que revelaram a verdade sobre as ações americanas no Vietnã e abreviaram a guerra.
Publicado na Folha de S. Paulo de 4/6/2013

Barão de Itararé promove debate sobre democratização da mídia, nesta quinta (6)


Debate marcará também a fundação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
A atividade contará com uma mesa de expertos no assunto como Mauro Santayana, Raimundo Pereira, Renata Mielli, Dennis de Oliveira e Laurindo Leal Filho, o Lalo, no dia seis de junho, às 19 horas, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. O objetivo do debate é reforçar a campanha “Pra expressar a liberdade” e fundar o núcleo do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé de São Paulo.
O projeto de lei foi formulado por dezenas de ativistas e entidades dos movimentos sociais e da mídia alternativa trata sobre regulamentação da Constituição Federal e reafirma que os meios de comunicação deve promover a cultura nacional, a pluralidade e a diversidade de ideias. O projeto de lei quer também a garantia de diversidade étnica, racial, de gênero e orientação sexual, além de conteúdo regional com a participação de trabalhadores locais nas grades de programação dos veículos para gerar mais empregos nas regiões.
Outro ponto importante é o combate ao monopólio e oligopólio na comunicação. Ponto nevrálgico do debate sobre a regulamentação da comunicação no país, a concentração dos meios de comunicação nas mãos de algumas famílias é considerada uma trava que impede o avanço dessa discussão na sociedade brasileira. As novas concessões de tv e rádios comunitárias que estão estagnadas também esbarram na gana dos monopólios ou dos políticos.
Uma nova lei para um novo tempo
A lei que orienta o serviço de comunicação completou 50 anos e não condiz com a realidade brasileira. Essas leis que tratam sobre a comunicação ainda dialogam com um Brasil que não existe mais, em que os coronéis e o voto de cabresto eram fatores que decidiam o rumo do país.
A nova realidade brasileira construída, principalmente, ao longo dos últimos dez anos, exige que os meios de comunicação estejam em sintonia com os desafios da convergência tecnológica, mas acima de tudo que atenda o anseio social de mais liberdade de expressão.
Desde o dia 1º de maio, data de seu lançamento, o projeto de mídia democrática é o atual instrumento de luta para aprofundar a democratização do país com a regulamentação da comunicação. O desafio agora é ampliar o debate e garantir um milhão e trezentas assinaturas para o projeto tramitar no Congresso Nacional.
A atividade também marcará a fundação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé de São Paulo, em que o objetivo principal é reforçar a campanha no maior estado da federação.
Mais informações:
Debate: "A regulamentação da comunicação e o projeto de mídia democrática"
Dia: 6 de junho
Horário: 19 horas
Local: Sindicato dos Jornalistas de São Paulo
Rua Rego Freitas, 530 - próximo ao metrô República.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Luciano Martins Costa: Quem sobrevive ao futuro da mídia?


Uma nota publicada pela Folha de S.Paulo na edição de quarta-feira (29) informa que a venda de computadores pessoais deve diminuir 7,8% neste ano em todo o mundo, uma queda maior do que a esperada pela empresa de pesquisas IDC, que acompanha o desenvolvimento da tecnologia digital. 

Por Luciano Martins Costa*, no Observatório da Imprensa


No texto original, distribuído na véspera, a empresa registra que os computadores de mesa e mesmo os portáteis tipo laptop estão sendo substituídos muito rapidamente pelos tablets, cujas vendas devem crescer 58,7% em relação ao ano passado, chegando a 229,3 milhões de novas unidades até o final de 2013.

Os dados apontam a consolidação de um novo paradigma no setor de informações e comunicação, com a predominância de equipamentos com múltiplas funções e completo acesso à internet em qualquer lugar e em pleno movimento. A novidade é a aceleração desse processo, que indica a preferência por aparelhos com telas de até 8 polegadas, cerca de 20 centímetros, que devem dominar o mercado até 2017. Um dos principais estímulos a essa tendência é a adoção de tablets na educação, que impulsiona a multiplicação dos aparelhos em larga escala e pressiona os preços para baixo.

É aqui que a questão tecnológica se cruza com a observação da imprensa. O ponto central é: como a imprensa tradicional vê as mudanças tecnológicas e as rupturas provocadas por elas no ambiente social. Para resumir a ópera, o que se pode afirmar é que as empresas tradicionais de mídia sempre trataram essas tecnologias como risco, não como oportunidade.

No Brasil, com exceção do Grupo Folha, que edita a Folha de S.Paulo, todas as demais organizações relutam a admitir que, em algum momento, aquilo que chamamos de jornal possa vir a desaparecer. Embora os números não sejam públicos, sabe-se que o complexo de serviços digitais chamado UOL jáse consolidou como a cabeça do grupo empresarial, e a Folha de S. Paulo sobrevive como uma marca de transição.

Para os brasileiros que se alfabetizaram nos anos 1990, chamados de nativos digitais, a Folha é uma referência do passado, assim como outras denominações da mídia física, como os jornais o Estado de S.PauloO Globo, e revistas como Veja e Época. Mesmo o presidente do conselho de administração do Grupo Abril, Roberto Civita, recentemente falecido, se dizia conformado com a ideia do fim da versão impressa de Veja.

A ilusão do controle

No entanto, aceitação não significa adequação, e a atitude predominante entre os controladores da mídia tradicional tem sido apenas de observar e aceitar ou não o desenvolvimento da tecnologia que, essencialmente, coloca em xeque o conceito clássico de mídia e mediação.

O artigo publicado na quarta-feira por Rodrigo Mesquita, na seção de opinião de O Estado de S.Paulo, tem exatamente esse sentido: o de afirmar que redes sociais sempre existiram e que o mundo sempre irá precisar de quem organize as informações para o cidadão. A ideia central de seu artigo é que o antigo papel do mediador muda de nome: agora o jornalista será o “curador” que irá monitorar os fatos do mundo contemporâneo, “mais fragmentado, complexo e rico”, dando-lhes contexto e perspectiva. Ao afirmar que “nada mudou” nessa relação, o autor apenas repete o mantra mágico que tem reduzido as chances de sobrevivência do jornal.

No mundo real, as redes sociais que têm como suporte a tecnologia digital são muito diferentes do sistema de comunidades em que a indústria da imprensa construiu seu papel histórico. Os princípios organizadores da cultura nesse novo contexto se caracterizam, entre outros elementos, por uma relação de reciprocidade entre as partes e o todo, o que torna problemática a presença de uma autoridade mediadora. Mesmo o conceito de cultura, antes uma “cultura de elite”, se dilui e se configura como movimento e dinâmica de trocas sociais.

O autor do artigo publicado no Estado tem suas razões, sonha com a hipótese de que o jornal seja como “a Ágora da pólis” no mundo contemporâneo, e está defendendo seu patrimônio. Por outro lado, a observação crítica da imprensa não significa uma torcida pelo desaparecimento da mídia, mas um exercício de reflexão independente que ajude a entender essa transição para uma realidade ainda mal compreendida.

A questão central é: como os pensadores da mídia tradicional encaram o futuro. A diferença básica entre os formuladores da visão de um mundo futuro, como o visionário empreendedor Steve Jobs, criador da Apple, e os gestores da mídia tradicional, é que estes tentam adivinhar o futuro e aqueles, como Jobs, tratam de construí-lo.

Há uma diferença crucial entre a perspectiva das mudanças e uma atitude prospectiva, que interfere nas mudanças. Abandonar a ilusão do controle sobre a crescente autonomia dos indivíduos seria um bom começo. Ainda que tardio.

* Luciano Martins Costa é jornalista, apresentador do programa do Observatório da Imprensa no Rádio

terça-feira, 21 de maio de 2013

Comunicação pública: o caminho se faz ao andar

Por muitos anos, acompanhei o debate sobre a necessidade de democratizarmos a comunicação, sobre o papel deletério que os monopólios familiares tem nesta área, e principalmente quais os valores e práticas fundamentais para construirmos uma comunicação plural e democrática.
Tudo muito bem embasado, na experiência dentro dos veículos da grande mídia, e nos extensos seminários acadêmicos da área.
Pois bem, desde o ano passado passei da teoria à prática. Saí de Brasília, onde atuava como assessor de imprensa no Congresso, para a redação da Fundação Piratini em Porto Alegre-RS.
E pude verificar que estes debates ainda são muito incipientes para a construção de uma proposta concreta e factível de comunicação pública.
A Fundação Piratini é uma das melhores experiências de comunicação pública do país. Consolidadas há muitos anos, a TVE-RS e a FM Cultura são reconhecidas pela capacidade técnica e pela heróica resistência de seus funcionários ao enfrentar inúmeros governos determinados a extingui-las.
Pois bem, apesar deste histórico positivo, ainda existem muitas dúvidas, problemas e lacunas.
No tocante às dúvidas, ainda são nebulosas e difusas as fronteiras entre o interesse público, as ações de governos, e mesmo as motivações ideológicas.
Num terreno onde a palavra e a construção do texto levam o entendimento do ouvinte/leitor para um lado ou outro, estas dúvidas são graves e nevrálgicas.
Por muitos anos, a comunicação pública foi confundida com a comunicação de governos. As diferenças entre um e outro começaram a se delinear a partir do governo Lula, com a criação da EBC.
Este momento, permitiu pela primeira vez que as emissoras públicas pudessem visualizar a perspectiva de veicular conteúdos independentes das predileções dos governos do momento.
Evidente que isso, ainda é desejo e objetivo a ser alcançado em alguns veículos. Mas em outros, como a própria EBC, esta ações tomam forma.
Mas a formação de nossos jovens jornalistas, que impressionantemente saem moldados a uma percepção extremamente conservadora de nossas escolas, torna isso ainda mais complexo.
Aliás, este aspecto merece um artigo por si só. Muito se reclama do desjornalismo praticado pela Veja e assemelhados. Mas existem milhares de pequenas "vejas" espalhadas por todo o país. A quantidade de jovens dispostos a desmascarar a "ditadura petista" é assombrosa. Fruto das nossas escolas de jornalismo.
Voltemos às dúvidas.
Como produzir material, sem servir de escada ou suporte à interesses econômicos e políticos escusos?
A prática nos induz a focar apenas nos fatos. Parece óbvio mas não é. Dois terços das pautas de hoje são ancoradas nos releases, e o terço restante na apuração que os grandes veículos fazem.
Tanto uns quanto os outros são eivados de interesses.
Para superar esta imensa barreira, nos deparamos com os problemas estruturais que os veículos públicos enfrentam. O primeiro e mais evidente é o material. Faltam equipes, faltam equipamentos, falta estrutura de edição. Vi o investimento massivo que a Fundação Piratini fez em dois anos, para recuperar as duas emissoras. Mas mesmo assim, após dois anos, só foi possível recuperar o estrago que as gestões anteriores fizeram.
Isto não é pouco. Para que você, caro leitor tenha ideia, os aparelhos de ar condicionado essenciais para os equipamentos, ficaram quebrados por 6 anos. Isso mesmo, 6 anos.
Mesas de áudio e equipamentos caros estavam embalados para irem para o lixo. Estúdios haviam sido transformados em depósitos.
Uma limpeza dos entulhos depositados no forro de um dos prédios precisou de dezenas de caminhões para levar o lixo acumulado.
Mas este eterno recomeço tem um preço. Como competir com a grande mídia, se temos que restabelecer o mínimo.
E por fim, temos lacunas que nunca foram debatidas nos foros de debate sobre a comunicação.
Como integrar a comunicação pública à nova realidade trazida pela internet? Como avançar em direção a uma comunicação dialógica, transversal, democrática sem pensarmos a integração com as redes sociais. Elas podem ser suporte, feedback, promoção, fonte e veículo.
Na minha experiência, ficou claro que não há comunicação pública de fato, sem esta integração. E podemos ir além, pois as redes influenciam de fato e cotidianamente o jornalismo, e vice-versa. Mas como trazer esta relação para a produção cultural, na divulgação de novas manifestações artísticas.
Como inserir a prática do debate na construção de conteúdos, e ao mesmo tempo incluir conteúdo nos debates.
Estas lacunas estão sendo alvo de encontros como o Conexões Globais, que reúne a militância da cultura e da blogosfera. Mas ainda estamos distantes de enlaçar estas questões com a comunicação.
O empoderamento dos ouvintes/telespectadores/leitores conjugado com a apropriação dos conteúdos produzidos pela comunicação pública também são temas pouco claros.
Por fim, ainda temos um longo caminho a percorrer. A boa notícia é que estamos percorrendo-o.
Me valendo das palavras do peota sevilhano Antònio Machado:

"caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar."

sábado, 30 de março de 2013

Não à censura: Globo consegue o que a ditadura não conseguiu


Fica Azenha


Autor: 
 
Do Viomundo

publicado em 29 de março de 2013 às 20:32
Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.
Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.
Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.
Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.
Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.
Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.
Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Veja para escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.
Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.
Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.
Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.
No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.
Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.
Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.
Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.
Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.
Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.
Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.
O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.
Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.
Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?
O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.
Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.
Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.
Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão — entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.
Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.
E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.
Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.
Eu os vejo por aí.
PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.
PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.

domingo, 24 de março de 2013

Empolgações

Ando sumido deste espaço, pois desde o final do ano passado tenho me dedicado de corpo e alma à tarefa de aprender e contribuir com a FM Cultura/TVE aqui do Rio Grande do Sul.
É tudo muito empolgante. Os 10 anos que passei sendo assessor de imprensa no Congresso me trouxeram inúmeras experiências, alegrias, tristezas, novidades e decepções.
Mas a vivência aqui, tem me motivado demais. O debate sobre a comunicação pública em Brasília é sempre distante e mesclado de academicismos e um certo misticismo.
Misticismo de que apenas nossa participação na mídia, tornaria-a melhor e mais influente na vida cotidiana dos brasiliros.
Pois bem, na vida real o cotidiano é outra coisa.
Me deparei com as já esperadas dificuldades estruturais, decorrentes de anos de descaso pelos governos conservadores.
Sua ligação umbilical com a grande mídia, faz como primeira vítima a comunicação pública. É assim por todo o país.
Mas também me deparei com outras facetas, que nem imaginava.
A primeira e mais marcante é o conservadorismo latente ou explícito em jornalistas recém formados.
Isso é sério. Não sei o que se anda debatendo nas faculdades de jornalismo pelo Brasil afora. Mas me choquei ao ver jovens empolgadíssimos com posturas contra os movimentos sociais, contra manifestações, contra o governo e a "esquerda".
Nem os jornalistas dos grandes veículos que cobrem o Congresso são tão conservadores. São pequenos "Merval"s e "Kamel"s esperando sua vez de brilhar contra a "corrupção".
É uma completa subversão de minhas ilusões de estudante, onde os editores eram conservadores e nós, os repórteres avançados e progressistas.
Mas nada como a vida real para desmistificar e desmontar ilusões.
Mas nem tudo são espinhos.
Tenho tido a oportunidade de acompanhar a integração entre comunicação e redes sociais. Esta tem sido uma grata surpresa, pois a conjugação destes dois meios, é muito mais profícua na comunicação pública.
Por inúmeros motivos, mas um dos mais importantes é a amarra que o comercial traz para a grande mídia.
Eles tem na publicidade seu esteio principal, e a divulgação de conteúdos é suportada por este esteio.
Pois bem, a divulgação nas redes também prescinde disso.
Em poucas palavras, sem anunciantes, os conteúdos são meio mancos.
A comunicação pública pode ir além. E mais que isso, pode beber do caldeirão democrático das redes.
Prometo me estender mais neste assunto em breve. Mas por hoje, fica aqui minha pequena introdução ao mundo real da comunicação pública.